Ao acordar, não estava mais naquele corredor, estava em
um quarto grande com outras crianças e completamente engessada.
Meu primeiro gesso não se limitava apenas à minha perna
esquerda, da perna ele prosseguia para meu quadril, subindo até o peito como um
colete, que para mim estava totalmente fora de moda.
Um ano foi o tempo em que aquele gesso permaneceu comigo,
sim exatamente “aquele” gesso, meu queridíssimo (puro sarcasmo é claro), Médico
na época (o qual prefiro nem comentar o nome, pois, lamentavelmente ele ainda
faz parte do corpo clínico do hospital, meus sentimentos aos seus pacientes,
sempre me pergunto quantas pernas ou braços ele deve ter amputado, sem ao menos
tentar recuperar, sem ao menos se dedicar, estudar um pouco mais as
possibilidades para um tratamento ao invés de usar de subterfúgios que a meu
ver tornariam sua vidinha medíocre mais fácil), nunca trocou meu gesso, apenas
reforçava onde começava a rachar.
Bem, eu tive a sorte de ter uma Mãe! E uma mãe com
inteligência suficiente para não aceitar a opinião de um açougueiro e com o
auxílio de nossa família recorrer a uma segunda opinião. Nunca, nunca em toda
minha vida eu vou conseguir esquecer aquele dia. Como já falei estava há um ano
com o mesmo gesso, para vocês entenderem vou explicar como é o processo de
tratamento da Osteomielite correto. Faz-se uma raspagem no osso infectado e uma
bomba de antibióticos vêm no auxílio do tratamento. Toda incisão cirúrgica
precisa de um respiro, principalmente se tratando de uma infecção como a minha,
pois é outro erro, neste um ano com meu amigo gesso não houve janela, não houve
troca de gesso, não houve nada! Aliás, houve sim, houve muita dor, houve uma
criança que não conseguia se alimentar, pois, o gesso comprimia meu abdômen
fazendo com que tudo que eu ingerisse tomasse o caminho de volta, houve uma
perna que nas mãos deste ser entrou em estado de putrefação.
“É, não tem jeito mãe, vamos ter que amputar a perna
dela.” Foi isso que eu e minha mãe ouvimos desse medíocre após um ano de
sofrimento. Quem chegava perto de mim sentia o mau cheiro, sentia que algo não
estava bem, e o Dr.muita merda, obviamente não arriscaria abrir e observar o
resultado de seu trabalho. Peço desculpas pela minha indignação e até minha má
educação, mas, esta mágoa, esta dor não consigo apagar mesmo após tantos anos
para mim, é como se tudo tivesse acontecido ontem.
Minha mãe revoltada me pegou nos braços e disse: Não, se
Deus quisesse que eu fosse mãe de uma menina sem uma perna ela teria nascido
com algum problema. Saímos desnorteadas, e muito assustadas com medo do nosso
futuro.
Continua...
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