sábado, 2 de junho de 2012


Ao acordar, não estava mais naquele corredor, estava em um quarto grande com outras crianças e completamente engessada.
Meu primeiro gesso não se limitava apenas à minha perna esquerda, da perna ele prosseguia para meu quadril, subindo até o peito como um colete, que para mim estava totalmente fora de moda.
Um ano foi o tempo em que aquele gesso permaneceu comigo, sim exatamente “aquele” gesso, meu queridíssimo (puro sarcasmo é claro), Médico na época (o qual prefiro nem comentar o nome, pois, lamentavelmente ele ainda faz parte do corpo clínico do hospital, meus sentimentos aos seus pacientes, sempre me pergunto quantas pernas ou braços ele deve ter amputado, sem ao menos tentar recuperar, sem ao menos se dedicar, estudar um pouco mais as possibilidades para um tratamento ao invés de usar de subterfúgios que a meu ver tornariam sua vidinha medíocre mais fácil), nunca trocou meu gesso, apenas reforçava onde começava a rachar.
Bem, eu tive a sorte de ter uma Mãe! E uma mãe com inteligência suficiente para não aceitar a opinião de um açougueiro e com o auxílio de nossa família recorrer a uma segunda opinião. Nunca, nunca em toda minha vida eu vou conseguir esquecer aquele dia. Como já falei estava há um ano com o mesmo gesso, para vocês entenderem vou explicar como é o processo de tratamento da Osteomielite correto. Faz-se uma raspagem no osso infectado e uma bomba de antibióticos vêm no auxílio do tratamento. Toda incisão cirúrgica precisa de um respiro, principalmente se tratando de uma infecção como a minha, pois é outro erro, neste um ano com meu amigo gesso não houve janela, não houve troca de gesso, não houve nada! Aliás, houve sim, houve muita dor, houve uma criança que não conseguia se alimentar, pois, o gesso comprimia meu abdômen fazendo com que tudo que eu ingerisse tomasse o caminho de volta, houve uma perna que nas mãos deste ser entrou em estado de putrefação.
“É, não tem jeito mãe, vamos ter que amputar a perna dela.” Foi isso que eu e minha mãe ouvimos desse medíocre após um ano de sofrimento. Quem chegava perto de mim sentia o mau cheiro, sentia que algo não estava bem, e o Dr.muita merda, obviamente não arriscaria abrir e observar o resultado de seu trabalho. Peço desculpas pela minha indignação e até minha má educação, mas, esta mágoa, esta dor não consigo apagar mesmo após tantos anos para mim, é como se tudo tivesse acontecido ontem.
Minha mãe revoltada me pegou nos braços e disse: Não, se Deus quisesse que eu fosse mãe de uma menina sem uma perna ela teria nascido com algum problema. Saímos desnorteadas, e muito assustadas com medo do nosso futuro.
Continua...

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